O peso de um mundo machista na construção de uma carreira de sucesso

Mulher, mãe de duas filhas, cearense e com uma carreira de sucesso, Neivia Justa, 47, é formada em Jornalismo pela Universidade Federal do Ceará, pós-graduada em Marketing pela ESPM, com MBA em Varejo pela FIA, e Diretora Latam de Comunicação e Responsabilidade Social Corporativa na Johnson & Johnson.

 

Neivia nasceu em Fortaleza, capital do Ceará, passou a infância em João Pessoa. Viveu na Inglaterra, aos 17 anos, aos 23 anos se mudou, na cara e coragem, para São Paulo, para cursar sua pós graduação na ESPM. Sua história foi baseada em um mundo masculino e seu pai foi uma das pessoas mais importantes para a construção de sua personalidade.

 

“Eu tive uma influência muito masculina durante toda a minha infância e isso moldou muito a minha personalidade. Sou a filha mais velha, tenho dois irmãos depois de mim. Sou a neta mais velha do meu avô materno. Tenho oito tios homens e até os meus oito anos eu era a única filha, neta e sobrinha da família. Vivi num universo em que não existia margem para ser tratada como princesinha. Sempre achei que tudo era possível para mim e tive um pai que me fez acreditar nisso”, relembra Neivia.

 

Neivia também viveu uma época em que todos os seus chefes e mentores eram do sexo masculino, mas ainda assim não se tornou uma pessoa cinza, azul marinho, preto e branco. “Quando eu vim para São Paulo, há 24 anos, não existia essa discussão que temos hoje sobre equidade de gênero, liderança feminina, oportunidades iguais para mulheres. Eu construí carreira em empresas grandes, e, tirando a Natura, a grande maioria das empresas era totalmente masculina. Foi uma das principais dificuldades na minha carreira, mas também uma das principais oportunidades de fazer diferente. Eu me dei conta de que existia uma possibilidade diferente quando assumi a diretoria de comunicação da Goodyear, foi quando me vi como a primeira mulher a estar numa posição de liderança, em 99 anos de existência da empresa!”, ressalta.
A executiva foi apresentadora de dois programas ao vivo na TV Educativa, foi responsável pela “Saia Justa”, coluna mais lida do jornal O Povo, na época. “Costumo dizer que um dia poderei dizer que comecei minha carreira entrevistando um santo: Dom Hélder Pessoa Câmara, bispo católico, arcebispo emérito de Olinda e Recife”, brinca Neivia. Em São Paulo passou por empresas como Braskem, Poliolefinas, Brasil Kirin, Schincariol,  Goodyear, GE do Brasil e Natura.

 

Uma das curiosidades da sua história foi quando conseguiu seu primeiro emprego em São Paulo, quando terminou a pós-graduação, como Gerente de Produtos da Timex. “Fui chamada só porque falava inglês, pois não tinha experiência alguma na área. Minha fluência em inglês era rara na maior cidade do Brasil, duas décadas atrás. Isso me abriu muitas portas. Meu inglês e minha paixão por novos desafios foram os pilares da minha carreira aqui. Eu acreditava que São Paulo permitiria que eu me tornasse tudo o que eu quisesse ser, profissionalmente. As oportunidades estavam aqui. E as possibilidades também. Cabia a mim escolher e trilhar o meu caminho. E ignorar eventuais preconceitos ao longo da estrada”, conta.

 

Neivia também é mentora do Triggers powered by Visionários (http://www.triggers.com.br/), programa inédito de educação e pré-aceleração de negócios sociais. “Eu venho trazendo para a minha vida essa bandeira de igualdade. É incrível poder inspirar essa geração nova e trazer o testemunho de que é possível. Quando você doa, ganha muito mais do que imagina”. Aliás, o empreendedorismo percorre toda a história de sucesso de Neivia, que sempre mudou de empresa com o desafio de estruturar do zero a área de comunicação, tanto ao nível Brasil, quanto América Latina. “Me tornei uma grande empreendedora de startup de área!”. Para ela, para empreender é necessário ter uma ideia que satisfaça uma necessidade existente, uma solução para um problema. “Os maiores sucessos são os daqueles que conseguem antecipar uma solução para uma necessidade que ainda vai existir”.

 

A profissional também dá dicas, que julga serem valiosas, àqueles que pretendem seguir uma trajetória empreendedora: faça o que pode com o que se tem. E não se deixe demover se realmente acredita na sua ideia. “Quando somos muitos jovens, as pessoas sempre desacreditam das nossas ideias. Sempre vai ter alguém que diz “guarda essa ideia para quando sair da faculdade”. Então eu digo para as minha filhas e a todos os jovens para não deixarem que o senso comum e senso crítico os demova daquilo que acreditam que podem fazer a diferença no seu mundo, ao seu redor”.