De diretora de investimentos à empreendedora e investidora social

Entrevista com Cristiane Pedote

“Ler ‘O Livro Tibetano do Viver e do Morrer’, de Sogyal Rinpoche, e dar início à prática da meditação, em 2012, foi definitivamente um turning point na minha vida”. É assim que Cristiane Pedote, 47 anos, formada em economia e com uma longa carreira de sucesso no mercado financeiro, define uma das melhores coisas que já fez na vida. A filosofia budista e a prática diária da meditação lhe trouxe um aprendizado profundo, que continua em formação, inclusive estudando antroposofia.

“Para mim o aprendizado se tornou, nos últimos anos, um exercício de auto reflexão. Eu tenho aprendido muito a partir das minhas ações e das reações das pessoas. Eu exercito modos de agir diferentes, vejo o impacto, e isso orienta as minhas decisões. É um processo de consciência muito presente. Quanto mais eu me observo e tomo as decisões a partir disso, mais rica, mais efetiva vai ficando a vida”, explica Cristiane.

Com foco na independência financeira, desde menina, a empreendedora e investidora social relembrou as principais influências na construção da sua personalidade. Além dos pais, o avô paterno e a personagem Emília, de Monteiro Lobato, são suas grandes referências. “Meu avô era uma pessoa muito determinada, falava o que pensava, às vezes um pouco duro. Ele definitivamente me influenciou bastante. Já Emília eu conheci aos oito anos, quando ganhei a coleção completa de Monteiro Lobato, e me encantava com a sua audácia, uma figura feminina que ousava”, ressalta.

No início de 2016, Cristiane deixou o importante cargo corporativo de diretora da Barclays, banco de investimento, onde atuou por 13 anos, para se dedicar 100% a projetos e trabalhos em que possa se envolver, com o devido impacto social que estes representam. “Desde fevereiro o que norteia as minhas escolhas são posições que me permitam fazer várias coisas simultâneas. Pode ser tanto remunerado como pro bono. O importante é a minha atuação como agente de transformação”.

Além de mentora do Visionários, plataforma inovadora que estimula o empreendedorismo social, além de outras instituições, Cristiane é fundadora de Pulsara, projeto que tem o objetivo de maximizar a capacidade das pessoas de contribuir umas com as outras. “Até 2014 estava voltada 100% ao universo corporativo. Foi quando comecei a atuar com empreendedores de redes diversas e pude constatar que a minha bagagem não é restrita ao universo financeiro, mas pode ser traduzida a outros universos. Isso me mostrou que sou uma profissional versátil, posso ajudar, colaborar, compartilhar a experiência que conquistei ao longo dessa trajetória de mais de 20 anos. Foi daí que criei a Pulsara, espaço em que pessoas que transitam por áreas completamente diferentes possam se encontrar a partir de uma busca comum”, explica.

O empreendedorismo para Cristiane é algo possível para qualquer pessoa que tenha uma ideia e não a abandone. O mais importante: espalhe esta ideia para outras pessoas, buscando parceiros. “Empreender dentro da economia solidária, colaborativa, sair do modelo tradicional da competição, e olhar para a interação; somar esforços”, explica. A investidora social vai além, para ela o empreendedorismo social é o modelo econômico do futuro: “Penso que em algum momento os setores vão convergir. Vejo o setor tradicional do lucro pelo lucro fadado ao fracasso. A tendência é o empreendedorismo apoiar-se nas bases do capitalismo, mas com foco em eficiência, em fazer de uma maneira melhor, pensando nas externalidades, no impacto.”

Para aquele que deseja empreender, a investidora social deixa uma mensagem curiosa: celebrem seus fracassos! “Eu aprendi isso com um empreendedor italiano da área de tecnologia que toda sexta-feira realiza a ‘Pizza do Fracasso’. E só tem pizza para os colaboradores que contarem seus fracassos. Eu tenho percebido que o empreendedorismo tem um ciclo que passa por sonhar, ter ideia, planejar, executar e, por último, celebrar. Na celebração é importante celebrar as conquistas, mas também o que deu errado. Afinal, se eu não trouxer o fracasso, crio uma expectativa de que só os acertos precisam ser celebrados. Dessa forma, a chance de repetir os mesmos erros diminui, assim como o medo de errar, de dar a cara a tapa, de ousar” finaliza.